Instagram

A morte da lagarta



Inevitável para a lagarta ou taturana é morrer para quem se é, e, depois de um tempo de crisálida ou casulo, renascer como uma borboleta. No final da sua vida de lagarta, ela deixa de comer e se retira para um lugar solitário para lá se metamorfosear. 

Nós não sabemos se ela sofre com essa metamorfose, mas se sofre, ela aceita de bom grado esse sofrimento, porque em seu íntimo, a lagarta sabe que o seu verdadeiro estado é ser borboleta. 

Há uma polarização interessante entre toda a vida da lagarta e da borboleta. 

A borboleta é muito diferente da lagarta, ela possui quatro asas velatíneas, meia dúzia de pernas flexíveis, dois olhos de opala com milhares de facetas visuais; possui uma língua em forma de espiral contrátil, chamada de espirotromba ou probóscide, com a qual suga o néctar das flores. Em vez de rastejar pela terra, a borboleta voa de maneira elegante pelos espaços ensolarados. 

E toda essa transformação se deu durante a morte da lagarta, que também é o nascimento da borboleta. A crisálida é a forma intermediária, e essa forma pode ser comparada com uma meditação profunda. 

A meditação foi comparada por mestres espirituais como o egocídio, ou a morte voluntária e temporária no nosso ego físico-mental, mas em plena vigília do Eu-espiritual. Durante uma verdadeira e profunda meditação, a pessoa fica inerte, como morta, imóvel, em silêncio, totalmente imersa na consciência espiritual, sem o funcionamento dos sentidos e da mente. 

Não se trata do sofrimento como tal que transforma, mas o sofrimento compreendido e aproveitado. (Leia o artigo: Por que sofremos?) A pessoa que não se transforma em meio a todas as tribulações pelas quais passa, continua a vida inteira como lagarta, pesada e comilona, ao passo que a pessoa que passou por um sofrimento compreendido, e aceito, sim, entra numa atitude de serenidade e leveza, que faz lembrar a leveza e o silêncio da borboleta, que apesar disto, continua a manter o contato com a terra. 

O sofrimento compreendido e aceito confere ao homem uma intuição estranha das coisas superiores; dá-lhe gosto pelas coisas que, outrora, o desgostavam ; dá-lhe facilidade de compreender o incompreensível e de ver as coisas invisíveis. (ROHDEN, 1993)

Evidente que não podemos gostar de sofrer, o sofrimento pelo sofrimento nada mais é do que masoquismo mórbido, mas podemos ver o sofrimento como oportunidade, como um meio, um caminho que conduz para um patamar superior, que aqueles que não sofrem ignoram. 

Tamanha sensibilidade indescritível que o sofrimento compreendido pode proporcionar vale por todas as dores e angústias anteriores. Portanto, quem quiser voar como borboleta, deverá, antes, morrer como crisálida, depois de ter vivido como lagarta. 

Blessed Be! ðŸŒ™ Sacerdotisa Ygrite 

Postar um comentário

0 Comentários