Sabemos que a divindade feminina era venerada a partir dos aspectos da Lua muito antes dos cultos solares e dos mitos patriarcais. A Mãe Divina era multifacetada e teve muitos atributos, além de formas diferentes de acordo com as características culturais onde era cultuada.
Desde o período paleolítico, 40.000 anos atrás, se tem evidencia do culto à divindade feminina. A Deusa neolítica abrangia uma renovação constante e periódica da vida, e esta não era nunca separada da morte. Havia um profundo entendimento e respeito pelos ciclos naturais lunares e femininos, a própria sexualidade era vista como sagrada, fonte divina de procriação e prazer.
A Deusa foi cultuada em muitas culturas e sob muitos nomes. Considerada o princípio criador e organizador do universo, a Grande Mãe, personificava nas suas representações os ciclos da vida, da morte e do renascimento. Seu domínio compreendia além do mundo humano, os reinos (animal, vegetal e mineral), o céu, a terra, o mundo subterrâneo, aquático, bem como as estações da natureza e os ciclos sazonais e cósmicos.
As antigas religiões patriarcais evoluíram para o monoteísmo e as diversas divindades foram reduzidas ao Pai divino, ser supremo oniciente e onipresente. A destruição final do conceito da Deusa se deu com a trindade cristã, Pai, filho e Espírito Santo. A doutrina cristã negou completamente à divindade feminina e ainda mais o seu aspecto sombra, Senhora da Morte, Deusa da Lua Negra, Anciã Ceifadora.
Assim, toda a humanidade não aprendeu a lidar com a finitude humana e os ciclos de renovação, fomos desprovidos da importância do ato sexual e não sabemos lidar com a finitude da vida e a inefabilidade da morte, pois esse são aspectos da fase escura do processo cíclico natural. A crença em renascimento foi considerada heresia e todas as práticas pagãs foram abolidas. Os dogmas cristãos postulavam a existência de uma única vida, e esta deveria ser vivida de acordo com as leis morais da igreja cristã. A desobediência acarretaria o pecado e à inerente punição. Assim, foi criado o inferno cristão, que nada tem a ver com o reino subterrâneo da Antiga Religião. Foram as religiões monoteístas que criaram a dicotomia Céu e Inferno, bem e mal, recompensa e punição. As bruxas não acreditam nisso.
A nossa atual cultura ocidental, personifica a Deusa em sua face escura, anciã, terceira face da deusa tríplice, com muitos atributos femininos antigos, como conhecimentos oraculares, magia, cura, sexualidade sagrada, os mistérios do nascimento, morte e regeneração, que foram negados e banidos da sociedade patriarcal e dogmática. Não apenas os ensinamentos da face escura da Deusa foram negados, como também a sombra individual e coletiva. Quando ocorre a negação de um aspecto do Todo temos a chave da formação da sombra.
Os sonhos revelam a nossa mente inconsciente, ou seja, as imagens dos nossos sonhos personificam aspectos da nossa personalidade global. A psicologia junguiana delineou quatro dessa figuras e as chamou de sombra, anima, animus e Self. E considera a sombra como sendo características psíquicas negadas, mesmo que expresse traços da nossa personalidade. A sombra esconde tudo o que negamos e não queremos encarar, tudo aquilo que não gostamos em nós por considerarmos vergonhoso, feio, inadequado, ameaçador, bem como valores e qualidades que são positivas mas desconhecemos, reprimimos ou tememos expressar. Frenquentemente a sombra nos traz mensagens do nosso inconsciente que, por meio de sonhos e visões, revelam processos que trabalham embaixo do limiar da mente consciente. A anima e animus são basicamente figuras do inconsciente que a psicologia analítica indica haver psicologicamente uma mulher interior dentro de cada homem e vice versa. É um conceito muito denso que não será tratado neste artigo. O Self, para Jung, escrito com maiúscula, significa aquele centro supra-ordenado, interior e divino da psique que devemos explorar pela vida afora. Não sabemos o que o Self é em nós, nem o que ele quer. Para isso precisamos dos sonhos. Podemos dizer que os sonhos são cartas que o Self nos escreve a cada noite, dizendo-nos para fazer um pouco mais disso, um pouco mais daquilo, ir para um lado, ou para outro. Encarando a vida como um todo, vemos que há um padrão, como se o Self tivesse um plano para nós, uma espécie de destino. Há um perigo, porém: confundir o "Self, no sentido que Jung dava a esse termo, e aquilo que se entende por auto-realização em boa parte da literatura psicológica, quando o que se tem em mente é construir uma sólida consciência do ego. Esse aspecto sem dúvida é importante, especialmente na primeira metade da vida, mas nada tem a ver com o conceito de Self para Jung, que não é auto-realização no sentido corrente. Ao contrário, trata-se da aventura de encontrar, dentro de si, um centro interior mais forte que o ego.
A sombra representa todos os nossos medos, tudo aquilo que não reconhecemos e que rejeitamos, mas que mesmo assim exercem poder em nossa vida. A sombra não é 100% má.
Com bastante freqüência, não passa de uma espécie de um ser primitivo, meio sem modos e até animalesco, alguém muito próximo da natureza. Na maioria das vezes a sombra não é mau — apenas alguém natural, existente e muito importante de se ter reconhecimento dentro de nós.
A cura perpassa religar o indivíduo à sua própria vida interior instintiva.
As nossas ações e escolhas são diretamente proporcionais ao controle que a sombra exerce sobre nós. Se o medo contido na sombra se torna dominante, nos sentiremos frustradas(os) e insatisfeitas(os) o que prejudica o nosso empoderamento e integração. Toda essa atuação não nos é consciente pelo simples fato de a sombra permanecer no inconsciente, nos impulsionando sem que percebamos para a repetição de comportamentos e ações prejudiciais. Apenas descobrindo a causa de tais escolhas é que é possível mudar.
Nas antigas sociedades matrifocais, de modo diferente do princípio masculino, a Deusa era imanente em toda a sua natureza e era venerada na natureza, nas fontes, nos rios, nas grutas, mares, círculos de pedras, nas lareiras e em todos os lares. As mulheres detinham papéis importantes como sacerdotisas, parteiras, rezadeiras, curandeiras, advinhas e detentoras dos mistérios rituais para proteção, abundância, segurança dos seres vivos, plantios, bem como cuidados com os mortos e antepassados.
Pesquisas arqueológicas indicam que a ruína desse modelo se deu com as invasões das tribos patriarcais em concomitância com as catástrofes naturais e as guerras que devastaram as culturas indígenas do Oriente e Europa. Foi um período onde houve o predomínio da violência, da escravidão, pilhagem, estupros, mortes além de queimas de templos e casas dos povos conquistados. As mulheres foram perdendo o seu papel de autoridade anterior, espiritual ou social, e progressivamente foram proibidas de exercerem qualquer culto à Deusa.
A permanente negação, repressão, punição e perseguição fez com que os valores da sacralidade feminina fossem ofuscados. As tribos patriarcais erigiram a sua civilização sobre a ruína e a conquista dos povos matriarcais, eles impuseram o seu modelo de organização pautados no domínio e destruição. A divindade feminina foi substituída pela imagem de Deus, Pai, rei, sacerdote, imperador, que substituíram os valores e a importância da Deusa. Mitos, cultos e rituais foram reelaborados e reescritos para conter os novos conceitos, a Deusa foi transformada em consorte, amante e filha dos deuses e líderes patriarcais.
Uma das consequências da perseguição ao culto da Deusa foi a polarização na psicologia humana entre os deuses masculinos portadores da luz e as divindades femininas ocultas na sombra. A luz se tornou sinônimo de bem e a escuridão, sinônimo do mal, isso era retratado no combate entre as forças ditas da luz e da escuridão, o que culminou na supremacia do Deus sobre a Deusa. Assim, as imagens que suscitavam à Deusa não mais tinha uma característica de Mãe compassiva, fonte de criação e sustentação da vida, mas passou a representar a personificação do mal, à escuridão. Foi a partir daí que as mulheres passaram a ser consideradas impuras e culpadas pelo pecado original, precisando portanto, serem punidas. As mulheres passaram a ser propriedade dos seus pais e maridos perdendo a sua autonomia.
Mesmo na Grécia clássica, conhecida por ter sido o berço da democracia, não havia o reconhecimento dos direitos legais às mulheres. O amor ideal era considerado entre dois homens, um jovem e outro mais velho, sendo o mais velho considerado mestre do primeiro. A função da mulher era unicamente gerar e cuidar dos filhos legítimos e a sua representação era desprovida de qualidades espirituais e intelectuais.
No século V o Concílio Papal de Constantinopla proibiu a crença na reencarnação e baniu a todos os costumes e crenças ligados à passagem das estações e práticas folclóricas. A Igreja Cristã romana suprimiu de modo metódico todo o tipo de informação que fosse fora dos preceitos bíblicos. As antigas academias gregas foram fechadas, as obras clássicas dos poetas e filósofos foram queimadas. O templo de Elêusis foi fechado, a chama sagrada de Vesta foi apagada e depois destruída e a biblioteca de Alexandria foi queimada e destruída como o último repositório da antiga sabedoria ancestral.
A Inquisição e a Idade Média com a sua brutal caça às bruxas eliminou sistematicamente todas as pessoas que continuavam a lembrar, praticar, ensinar e preservar os ensinamentos da Antiga Religião. Ocorreu uma verdadeira chacina de mulheres parteiras, curandeiras, benzedeiras, advinhas e devotas da Deusa foram consideradas bruxas e estigmatizadas de mal feitoras, foram perseguidas, torturadas e mortas, tendo os seus bens confiscados pela igreja.
Embora banidos da humanidade, a sociedade matrifocal e os valores centrados no feminino sagrado mantiveram alguns resquícios que conseguiram sobreviver por algum tempo por meio de práticas dos Mistérios de Elêusis ou de Ísis, e em cerimônias de deusas como Deméter, Perséfone, Hécate, Ártemis, Ísis, Kali, Cibele, entre outras, o Arquétipo feminino reaparece também nas lendas e nos contos medievais, permanecendo nas crenças populares e nos contos de fadas.
A negação e rejeição dos aspectos femininos, por não serem devidamente reconhecidos e considerados, são introjetados para o inconsciente, de modo a alterar a nossa percepção do mundo. O condicionamento cultural e os preconceitos religiosos negaram o feminino sagrado e as suas faces. A face escura da Deusa foi transformada no folclore e na literatura como a Rainha Má, a Madrasta terrível, a Bruxa desalmada, a Sogra dominadora, a Velha perigosa, etc. Todavia, esses aspectos distorcidos ainda vivem na psique humana, e os pensamentos negativos e de baixa frequência nos levam à neuroses, fobias, compulsões, desequilíbrios, obsessões.
A vida social infelizmente força o ego a usar máscaras e então nos comportamos de forma não natural. Reprimimos nossas reações animais ou simplesmente humanas por polidez ou qualquer outra exigência da situação. Quando as pessoas aprenderem a reconhecer a sombra e aceitá-la, vivê-la um pouco, aí mais elas se tornarão acessíveis, mais naturais, mais humanas.
As pessoas que se acham "sem sombra", aquelas que se pretendem perfeitas, provocam uma certa rejeição, traz uma inferioridade no ambiente que irrita aos demais. Elas agem de um modo superior ao demasiado humano. Por esse motivo ficamos tão aliviados quando algo ruim lhes acontece.
É importante reconhecer e aceitar a nossa sombra. Assim torna-se então possível uma relação mais natural entre dois seres humanos. A sombra seria, na verdade, a nossa melhor função social, pois ela nos integra no grupo. As nossas boas qualidades nos diferenciam, aí ficamos acima do grupo, já com a nossa sombra, nos reconhecemos, somos mais humanos.
Jung tem uma frase famosa que exemplifica bem isso que é assim:
"Uma pessoa não se torna iluminada imaginando figuras de luz, mas transformando a escuridão em consciência"
Não combata a sua sombra, acolha-a, ouça ela sem agir, apenas a perceba e transmute a sombra em luz, blessed be
Blessed Be! 🌙 Sacerdotisa Ygrite

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