Como Descobri a Bruxaria Natural: Minha Jornada como Sacerdotisa
Não houve um único momento em que eu tenha olhado no espelho e declarado: “Pronto, sou uma bruxa!”.
A minha descoberta foi como um fio que se desenrola aos poucos: cheio de nós, sustos, aprendizados e encantos. Se você chegou até aqui porque está tentando entender a própria espiritualidade, talvez encontre nesta história não apenas a minha trajetória, mas também um pouco da sua.
Quando o invisível fazia parte do cotidiano
Desde muito pequena, a vida já me mostrava que o invisível também é real. Meus sonhos eram intensos e, muitas vezes, pareciam antecipar acontecimentos. Espíritos atravessavam os corredores da casa, e minha insônia parecia não ter fim.
Para completar, eu sofria com fortes dores de ouvido que me faziam chorar durante a madrugada. Mas o medo de sair da cama e dar de cara com alguma aparição me mantinha imóvel. Muitas vezes, meus pais me levavam ao pronto-socorro. No fundo, porém, o que mais me assustava não eram as dores físicas, mas aquilo que eu pressentia além delas.
Com o tempo, as dores desapareceram, mas minha sensibilidade permaneceu.
As mulheres que abriram meus caminhos
Minhas avós tiveram um papel fundamental na construção da minha espiritualidade.
Minha avó Dina, profundamente católica, me ensinou a rezar o terço. Certa vez, fez com que eu rezasse no túmulo do meu avô — experiência que, para uma criança, parecia durar uma eternidade.
Já minha avó Lygia tinha uma visão diferente da vida. Ela dizia que o medo verdadeiro deveria ser dos vivos, não dos mortos. Foi ela quem me ensinou a rezar para meu anjo da guarda, e isso me trouxe, pela primeira vez, noites de sono tranquilas.
Hoje reconheço que minha espiritualidade nasceu justamente desse encontro entre diferentes formas de compreender o sagrado.
Adolescência: quando as perguntas voltaram
Na adolescência, o corpo e a alma entraram novamente em ebulição. Entre cólicas intensas, desmaios e visitas constantes ao pronto-socorro, minha sensibilidade espiritual reapareceu com força total.
Foi nesse período que minha mãe buscou o Espiritismo Kardecista como forma de compreender o que acontecia comigo. Passei a ler obras psicografadas por Chico Xavier, especialmente os livros atribuídos ao espírito André Luiz, além de romances espirituais bastante populares.
Mas foi quando encontrei os escritos da autora Márcia Frazão sobre bruxaria que senti algo diferente: pela primeira vez, tive a sensação de ter encontrado um caminho que fazia sentido para mim.
O encontro com a Bruxaria Natural
A Bruxaria Natural é uma prática espiritual baseada na conexão com os ciclos da natureza, no autoconhecimento e na responsabilidade individual. Embora muitas pessoas associem a bruxaria exclusivamente à Wicca, existem diferentes formas de vivenciar essa espiritualidade.
Autores como Ronald Hutton, em The Triumph of the Moon, destacam que os movimentos neopagãos contemporâneos possuem múltiplas origens e interpretações.
Para mim, a bruxaria nunca foi sobre poder ou fantasias cinematográficas. Sempre foi sobre pertencimento.
Velas brancas e magia na cozinha
Dentro da minha casa havia limites: nada de velas coloridas, apenas as brancas. Então encontrei na cozinha, nos cadernos de sonhos e nos pequenos rituais cotidianos espaços para manifestar minha magia.
Aos 16 anos, contrariando a vontade dos meus pais, fui trabalhar em uma sapataria para juntar dinheiro e pagar meu primeiro curso de Wicca.
Conheci minha mestra, vivi minha primeira iniciação e encontrei outras mulheres que também celebravam os ciclos da natureza.
Até meu primeiro caldeirão surgiu de maneira inusitada: um antigo caldeirão de ferro encontrado em um terreno baldio. Pintado de verde, tornou-se um símbolo de que a magia também pode se revelar nos encontros inesperados da vida.
Entre a vida acadêmica e a espiritualidade
A vida seguiu seu curso. Vieram a faculdade, o casamento, o mestrado, o trabalho como professora e a intensa experiência como conselheira tutelar.
Em determinado momento, percebi que estava vivendo no automático. Surgiu a necessidade de desconstruir antigas certezas, reinventar caminhos e assumir, sem medo, quem eu sempre fui.
Nesse processo, também vivi o fim de um relacionamento importante e o desafio de reconstruir minha própria história.
Quando a espiritualidade se transformou em missão
Foi nesse período que aprofundei meus estudos em Tarot, Astrologia, Radiestesia e diferentes práticas terapêuticas.
Tornei-me terapeuta floral, mestre em Reiki e ampliei meus conhecimentos em diversas abordagens voltadas ao desenvolvimento humano.
Com a maternidade — quando chegaram Cauã e Sofia — essa conexão ganhou ainda mais significado.
Minha espiritualidade deixou de ser apenas uma busca pessoal e passou a se tornar uma forma de acolhimento e serviço.
O Encanto da Bruxa
Exonerei do cargo público que ocupava e decidi mudar completamente de área.
Inicialmente, passei a realizar atendimentos em minha própria casa. Mais tarde, inaugurei um espaço dedicado às consultas presenciais e online de Tarot Terapêutico, Baralho Cigano, Florais de Bach e Numerologia Cabalística.
Hoje, concilio minha atuação profissional na área administrativa com os atendimentos espirituais e a produção de conteúdos sobre magia, tarot e arte.
Aprendi que não é preciso usar um chapéu pontudo para ser bruxa — embora eu admita que eles tenham muito estilo!
Para mim, a bruxaria está presente no cuidado, na escuta da intuição, na contemplação da natureza e na capacidade de transformar o cotidiano em algo sagrado.
Para quem está começando esse caminho
Se você sente curiosidade sobre a espiritualidade baseada nos ciclos naturais, permita-se estudar com responsabilidade e pensamento crítico.
- Leia autores confiáveis;
- Conheça diferentes tradições antes de escolher um caminho;
- Respeite seus limites emocionais e espirituais;
- Lembre-se de que não existe uma única forma de viver a espiritualidade.
Acima de tudo, compreenda que a sua jornada não precisa ser igual à de ninguém.
A magia, muitas vezes, não está nos grandes acontecimentos, mas nos pequenos gestos cotidianos: preparar um chá, acender uma vela com intenção, contemplar a Lua ou oferecer acolhimento a quem precisa.
Se você também sente essa chama dentro de si, saiba que não está sozinha.
Talvez a magia não precise ser encontrada. Talvez ela apenas esteja esperando ser reconhecida.
🌙 Blessed Be,
Sacerdotisa Ygrite
Sobre a autora
Mariana Aparecida da Silva é pedagoga, mestre em Educação, terapeuta floral, numeróloga cabalística e criadora do projeto Encanto da Bruxa. Atua com atendimentos terapêuticos e produção de conteúdos voltados à espiritualidade consciente e ao autoconhecimento.
Referências para aprofundamento:
- FRAZÃO, Márcia. Diversas obras sobre bruxaria natural.
- HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft.
- CUNNINGHAM, Scott. Wicca: A Practical Guide for the Solitary Practitioner.
- STARHAWK. A Dança Cósmica das Feiticeiras.

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